Publicado: 14/04/2008
(II)
UM GRILO NO ACERVO
O dia estivera quente - um sábado dos mais quentes de sempre, lembravam os mais velhos. Levantei-me às cinco da manhã para pegar ao trabalho às sete, na correia, a "torradeira de zinco" da Barroca Grande. Mal me livrei daquilo, às três da tarde, assim que o apitou soou para a rendição do turno, depressa me dirigi à minha terra, a velha Cebola - para casa o caminho é sempre a direito! Mas estava calor, mesmo muito calor... então naquela vertente que dá para o rebordão até se atingir a Selada Cova, onde se transpõe a serra, parecia-me comer lume! Era onde só as alegres e sonhadoras cigarras, poisadas nas estevas e carrascos, gozavam a efémera vida, cantando sem descanso como se estivessem no Scala de Milão.
Chegado ao "doce lar", peguei numa toalha, alguma roupa lavada e fui refrescar-me, e ao mesmo tempo cuidar da higiene que era o que o corpo necessitava e mais me pedia - uma barrela!...
Tomei as levadas da ar-chã (?) e subi o barroquito da fassoute (?), sumindo-me nas suas entranhas. Olhei o pequeno desfiladeiro e os barrancos que ladeavam este arcano lugar, que descobri ainda miúdo aquando das minhas andanças por fragas e matagais, barrocos e regatos, onde primeiro olhei o mundo sem o ver. Procurava cogumelos e armava aboizes para apanhar a passarada, mormente tordos e merlos que tivessem por guloseima roliças e suculentas minhocas ou apetitosas azeitonas pretas, luzidias e bem madurinhas. Assim, ali emparedado pelas ribanceiras que quase se tocavam e tão íngremes que impediam qualquer aproximação às suas bermas, fiquei a coberto e protegido de qualquer mirone indiscreto.
Banho é banho e requer privacidade.
O generoso fio de água fresca que caía da pequena cascata, por caleiro hábil e antecipadamente engendrado com folhas de um secular e imperial castanheiro que, ali perto, dominava majestaticamente a entrada daquele labirinto, ao bater-me no corpo desnudo lembrava-me um propalado líquido expressamente deificado e que serviria de lenitivo e purgante para todos os males espirituais, mas que, neste caso, além de celestial tonificante regenerador, servia também para expurgar a sujidade acumulada durante toda a semana. Com a torneira sempre aberta, ao mesmo tempo que incessantemente me refrescava, um naco de sabão azul-e-branco, o tal macaco que tirava até as côdeas da roupa, movido pelas mãos, percorria-me literalmente.
Cumprida essa grande necessidade, tornei ao povoado e ainda passei por casa para prover o estômago de algo substancial, de que bem carecido estava. Havia leite de cabra e broa… miguei a broa e comi à colherada … nada mau! Sai, e olhando para a avesseira reparei que a sombra já ia a meia canada, o que significava que seriam seis, seis e meia da tarde. Haveria ainda pelo menos três horas até ao crepúsculo. Eram as horas melhores de vivência na aldeia. Ainda hoje me lembram as belas tardes longas e amenas… Cedo o sol começava a esconder-se ao “seixo”, por cima dos lameiros, por cima das quebradas, deixando as casas à sombra, mas com plena claridade diurna ainda durante algumas horas. Se de alguma coisa, cá longe, se sente nostalgia, é daquelas tardes propícias para passeios e para convívios... vendo a sombra, vagarosa, a subir, palmo a palmo, a encosta da avesseira.
Passei pela eira, pelo clube, fui ao “povo”, e, uma vez encontrados alguns amigos que procurava, dirigimo-nos, conversando, pelo incontornável caminho da capela, onde, chegados, sentamo-nos nas escadas do pedestal. Cavaqueando, comentamos tudo o que fora notícia lá na terra, e não só…! Quase sem darmos por isso, a sombra tomara já o cume do cabeço carvalheiro; na Panasqueira acendiam-se as luzes públicas; lá longe, no horizonte, para as bandas da raia de Espanha, divisava-se já por cima dos montes uma cinta escura pronunciando a noite; no céu, apareciam algumas estrelas; de frente para o povoado ainda se podiam enxergar as chaminés com o característico fumo do lume aceso para preparação do caldo e dos feijões.
Ali estivemos até ao toque das trindades. "O doce toque das trindades"... Havia naquele ritual qualquer coisa de místico e romântico - as pessoas paravam, e, enquanto durasse o tanger do sino, ficavam na posição em que se encontrassem logo à primeira badalada - estáticas, concentradas, talvez rezando...
Entretanto, já tinha escurecido por completo. Era uma daquelas noites que da lua não havia conhecimento - nem cheia, nem metades ou quartos; era uma noite de lua nada. Daí que as estrelas tivessem um brilho inusitado.
O Sol – que me perdoe Galileu –, cumprindo a asserção de Fernando Pessoa, de que "a noite é a nossa dádiva de amor aos do outro lado do Planeta”, continuava a sua marcha para outras terras – estrepôs a serra das Meãs, esgueirou-se por Coimbra, saiu pela Figueira da Foz, entrou no Atlântico… de fuso a fuso, meridiano em meridiano, foi dar luz e calor aos pescadores da Terra Nova, beijar os states e colher um cravo um pouco a norte dos Grandes Lagos; entraria no Pacífico para saudar os corais e seus atóis; na terra dos nipónicos espreitará e, se apanhar distraído o samurai, entregará o cravo a uma linda gueixa – “toma lá, com os cumprimentos da múmia das arcadas” –; apressa-se na China para não estragar os arrozais aos simpáticos sinos, mas cuidará de saber como vão monges, budistas e confucionistas; vai admirar a Índia e dizer aos nirvanistas que sim senhor, que fazem bem em professar e praticar o Bem, em serem íntegros e calmos mas que não temam o desejo…desejar é querer, é viver, lutar e amar.
Chegando-se mais para ocidente verá terras da admirável Pérsia de xás, rajás e marajás carregados de ouro e marfim; nos guerreiros otomanos encontrará grandes vizires, sultões e sultanas, haréns, odaliscas e favoritas, favores, desfavores e intrigas palacianas; mais a sul terá de aceitar e admirar o domínio dos grandes comerciantes xeques, califas e emires.
Já no mediterrâneo terá saudades das grandes civilizações da antiga Hélada e dos seus mais ilustres helenos – Sócrates e Aristóteles, Arquimedes, Pitágoras e Euclides… e de Péricles, talvez o maior de todos, comummente reconhecido como o pai da democracia; decerto que não esquecerá as grandes obras dos faraós, os senhores do Nilo, e a fecundidade de Ísis e Osíris.
Vem pelo Mediterrâneo e depressa ultrapassará a Europa que o reconhecerá, saudando-o, e vem contente por voltar a Portugal, a Fernando Pessoa que o “deu” por amor àqueles de lá, e vem ansioso porque simpatiza com as nossas gentes. Mas Sol, poderoso Sol, não te jactes de teres visto coisas que nós não vimos, porque aqui, às escuras por culpa tua ou do Fernando, também se passaram das boas... tais que quase se cora só de nelas pensar.
Voltamos ao povoado.
Depois de deixar os amigos, passei de novo pelo clube… jogava-se à sueca, ao pingue-pongue, ao dominó… falava-se… convivia-se. Pouca mora porque me pareceu que, à eira, haveria espectáculo do melhor… Ainda à tapada, já ouvia o melancólico e dolente planger de uma guitarra no seu habitual, inalterável e inconfundível três-e-quinhentos-quatmirrés. Haveria baile? Só cantigas? Talvez uma desgarrada… Com efeito, nas fraguitas, frente à porta térrea do ti Zé Benjamim, voltados para o tronco, encontravam-se já o guitarrista e uns tantos rapazes, parecendo esperar mais público ou mais coragem para o início.
Olhei em redor e vi o que poderia ver, pressentindo mais do que via, mas habitualmente toda a gente reconhecia toda a gente só pelos vultos, silhuetas, pelo falar, pelo odor …até pelo respirar. Assim, não tive qualquer dificuldade para saber quem se encontrava. Não demorou, contudo, que o lugar fosse bem iluminado por dois gasómetros dos utilizados pelos mineiros, a combustível de carbureto.
Era rapaziada ainda nova.
A despeito da ancestral tristeza enraizada por séculos de opressão e precariedades; da forçada e quotidiana labuta para satisfação das exigências básicas ou primárias; sem embargo do temor não isento de ameaças de penas eternas e temporais servidas por dogmas conceptuais, subtis e ambíguos, mas de todo incompreensíveis e inexplicáveis, que, metodicamente, com precisão cirúrgica, logo – e sobretudo –, antes mesmo do entendimento, lhes foram inoculados por gerações vacilantes e reverentes diante de agentes obscurantistas; apesar disso – não obstante tudo isso –, e ainda que exauridos pela árdua semana de trabalho dentro das minas, abstraídos por ora de todos os fantasmas, esquecidas as dificuldades, ali estavam, soltos e emulados e prontos e empolgados para o seu lúdico serão, onde, nesse instante, apenas prevalecia o escopo que os animava - a alegria suprema de divertir divertindo-se, que era, essa sim, afinal, a sua verdadeira natureza.
Neste entrementes ouvi o cri-cri de um bucólico grilo no acervo de lenha para o forno do pão de trigo – um montão de chamiços, carquejas, monhiços, giestas, moitas, estevas, carrascos, queirós e alguma rama seca de pinheiro, bem encostado ao muro que dá para os quintais…cri-cri, cri-cri…era o grilo que abria as hostilidades!
Fosse por isso ou não, ouviu-se então o Zé Benjamim dizer: “Bom… começo eu e segue a eito pela direita”:
Salvo quem está a chegar
Saúdo os que já cá estão
Atiro com a boina ao ar
Vai cair na Malhada Chão
Resposta:
Caía na Malhada Chão
Se fosse boina de primeira
Mas parece um chapelão
E não passou da Cerdeira
Venham juntar-se a nós
Não se ponham na retranca
Vamos levantar a voz
P’ra se ouvir na Covanca
Depois entraram em escaramuças e picardias brejeiras, de que já não consigo lembrar-me. Seguidamente, houve quem estendesse a contenda para o genuíno vernáculo de Cebola:
Cantas mal não cantas bem
E pensas que és o primeiro
Mas pior seria se fosse
O nosso amigo sapateiro
Quem tal cantou, fê-lo apenas para trazer osapateiro à colação, pois sabia ser um elemento imprescindível nestes eventos, dado que era, reconhecidamente, um repentista nato, sempre espontâneo nas respostas em qualquer situação, e então ouviu:
Daí só espero asneira
Desse canal arranhado
Parece uma tripa cagueira
Cheia de vento atrasado
O guitarrista, raramente cantava, mas este não se conteve:
Comigo já tinhas emprego
E não te ficavas a rir
Pagava-te p’ra de joelhos
Veres o meu vento a sair
Havia muita gente a assistir, de ambos os sexos e de várias idades, e Baco, sempre pronto e à espreita de qualquer motivo para se insinuar, apareceu, como gosta, dissimulado em dois grandes jarros de vinho trazidos por duas belas moçoilas. Então, o Zé Benjamim, aproveitando para acalmar as hostes e olhando para os jarros, atirou:
Com aquilo é que eu vos calo
Por agora está tudo dito
Vamos fazer intervalo
Vamos beber um copito
Do campanário chegou o som das onze badaladas. Amanhã era o dia do Senhor e do senhor padre Artur para lhes sarar as mazelas espirituais; a mim esperava-me outro senhor: fora marcado um treino para as oito, na portela, a que não faltaria. Era preciso olear a máquina...
Chegara a hora de ir descansar.
Aproveitando a pausa das cantigas, retirei-me mais para o meio da eira, e pude então observar melhor todo o campo circunstancial, e vi a ti Rosa que, de candeia na mão, na varanda, chamava o Ramiro para cear; nas suas escadas de pedra, junto à porta de entrada, sentava-se o ti Zé Benjamim (pai), puxando da latita para aspirar mais uma pitada de rapé, talvez a derradeira do dia; ainda se ouvia a fonte, ao centro do largo, despejando o seu caudal para um regador que um ou uma retardatária enchia; a grande mimosa, junto ao chafariz, na quietude dos seus frondosos ramos, observava silenciosa; cães latiam no outeiro; nos seus estábulos, à tapada, bufavam vacas e bois, orneavam jumentos e mulas; nas pocilgas, grunhiam porcos à espera da vianda; a essa hora, ainda os galos estavam em silêncio e limitavam-se a manter as galinhas na ordem.
Cumpria-se também a Ordem Natural do Universo – e, olhando na direção do vale da colher, por cima do cabeceiro, vi a triste Ursa Menor, que, pelo rabo, era uma eterna cativa da Estrela Polar, incapaz de se soltar da pequena órbita, mais parecendo um burro, com talas, à volta do poço…; ao centro, mesmo em cima da ponte, podia ver-se, cintilando alegremente, a Ursa Maior; lá para os lados do cabeço dos Cambões, surgia já o Sete-estrelo, as Plêiades, as sete irmãs, filhas de Atlas, fugidas do caçador Oríon, que caçava mal pois que só chegaria pouco antes do nascer do Sol. Olhou mais uma vez a penumbra das serras, que só adivinhava pelo ápice e recorte, orlado pelo contraste com a claridade do céu estrelado.
E o grilo, sem sono, aproveitava o ligeiro descanso dos artistas, para saciar, também ele, a sua fome exibicionista: cri-cri, cri-cri, cri-cri!
Pela rua acima até à costa, nos sítios do costume, ainda se conversava animadamente…Até amanhã…boa noite...fui salvando quem estava…
Comi um caldito e fui deitar-me. Ainda peguei no livro que tinha à cabeceira – o Monte dos Vendavais, da linda Emily, a irmã do meio das três escritoras da família Bronté. Um livro da inevitável estante do Tonh’Abílio, meu habitual fornecedor. Não podendo comprá-los, recorria à boa-vontade de amigos que os tivessem. Retribuía como podia, com reconhecimento e amizade e – imagine-se! – com o mundo aventuras, uma publicação semanal da qual era assinante e que nesse tempo fazia furor, e que emprestava a quem gostasse de histórias aos quadradinhos.
Só que, agora, com o livro encostado ao peito, não conseguia avançar uma linha. Assaltavam-me as sensações vividas durante este longo dia, e, de todas, por absurdo que pareça, era o cantar do simpático grilo que mais me preenchia o pensamento.
Ele há coisas…!
Não deixava de ser curioso ter arranjado tal empatia com esse bichinho. Sabia que, mal abrissem o forno, ele iria, inevitavelmente, ser queimado e ajudar a cozer-nos o pão. Deu-me ganas de ir lá, procurá-lo e escondê-lo ou levá-lo para longe dali … ou de não comer o pão dessa fornada… mas logo descobri que no meu subconsciente apenas se estabelecia um paralelo, uma analogia: enquanto o grilo iria do montão de lenha para o forno, eu já estava na torradeira da correia, onde, lenta e inexoravelmente, seria torrificado e do qual não via como sair, pensasse o que pensasse! Ao menos se o grilo me aconselhasse…! Mas estava já bastante cansado para destrinçar as variáveis desta equação. Arrumei o livro, apaguei a luz do candeeiro a petróleo, espichei-me, e, enquanto na minha cabeça o grilo ainda continuava o seu alegre cricrilar…cricri, cricri, cricri…, fui “tomado” por Morfeu.
Constantino Braz Figueiredo