A menos de dois passos da entrada da casa da tia Maria e do ti’ Tinel Alegre existia um balcão de cimento que me fazia um medo terrível em noites de lua cheia. Podia ser que não sucedesse nada mas eu tinha receio que o ti’ Tinel quando chegava quentinho, do povo, com os copitos, caísse daquele calabouço e partisse a cabeça. Eu tinha apenas dez anos de idade. Entretanto perdia meia consciência e já meus olhitos de criança viam facilmente uma nuvem vermelha e negra que se desvanecia entre os braços do ti’ Tinel, a cair de bêbedo, por culpa de tantos taberneiros (e outros tantos) sem vergonha... Esses desgraçavam os lares de muitos pais de família nas terras de Cebola.
Quantas vezes o ti’ Tinel me deu a mão, como se ele mesmo fosse um menino com dois palmos de altura, e embriagado dizia: “Ó mana estou disposto a tudo. Não me prives da luz do teu mundo de garota feliz. Deves ajudar-me. Que faço eu para não beber tanto. Sabes mana, gosto da ti’ Maria só que o raio do tinto faz-me berrar com ela como um louco. Olha que até lhe empresto os meus punhos, depois fico três dias envergonhado e arrependido”. Repetiu estas palavras sei la quantas vezes, batendo com as mãos na cara. De seguida, com os olhos rasos de lágrima apertou tanto a minha mãozita fina e branca, como a de uma princesa encantada no meio da Serra do Açor, verdade, até me chegou a dor ao coração, e falou assim baixinho ao meu ouvido: “Gosto tanto da minha querida Maria”…
Olhei para ele, abracei-o com carinho, e com palavras mansas e cândidas implorei-lhe que não batesse mais na sua mais que tudo, na sua mulher.
Que buscava o ti’ Tinel numa altura em que falar do diabo era o que mais se ouvia nas aldeias e eu, inocentemente, produzia a aparição do demónio empurrando o pobre do ti’ Tinel do balcão até à estrada.
Um dia o pobre caiu à entrada da sua casa e ficou todo esfacelado. Naquele momento pensei logo que se desencadearia uma espantosa tempestade e que o ti’ Tinel seria arrebatado para todos os infernos, e com todos os diabos, por ser pecado mortal beber demasiado.
Naquele dia chorei amargamente. Depois, fui rezando por todo o caminho, quando a minha irmã me mandou levar um recado à casa da Fátima Saraiva. Mas a minha pele parecia um manto de carneiro... só via e apalpava pelitos no ar.
De repente ouvi uma voz profunda: “Vai depressa que o ti’ Tinel e a ti’ Maria precisam de ti”.
Fui correndo como louca até chegar ao Rodeio. A minha irmã Emília vivia na casa da prima Lurdes Adelaide até que o marido terminar o serviço militar. Contavam depois ir viver para a cidade da Covilhã. Ela, ao ver-me tão atarefada surpreendeu-se. Do alpendre quis saber o porquê da minha pressa mas nada lhe revelei. De menina bem pequena sempre soube guardar um segredo, ainda que encomendado pelos deuses!
Cheguei a casa do ti’ Tinel, entrei, virei a aldraba da porta e subia as escadas de madeira veloz como uma pequena fada, deslumbrante, como o sol, capaz de resolver todos os problemas daquela família para mim tão querida. Minha irmã veio logo ter connosco, curiosa. A ti’ Maria num profundo abraço amigo contou à Emília o susto que pretendia pregar ao marido depois do toque das Ave-Marias, logo que ele regressasse da bebedeira.
Naquela noite de inverno o dia escureceu logo que o senhor Sol adormeceu ao passar para lá da Capela, mal no benzemos, após o último toque e a derradeira oração.
Lá longe já se ouvia a voz do ti’ Tinel: “Maria já vou cá”. A ceia já está pronta?” Lembro-me muito bem da cena. A ti’ Maria meteu-me, num relâmpago, debaixo da cama. A minha irmã escondeu-se mais depressa no andar de cima da casa que um raio chega à terra quando troveja. Pudera a vítima estava quase com o pé direito na soleira da porta.
A ti’ Maria acabou por ser a protagonista daquela noite inesquecível. Foi a morte observada que mais gostei até aos dias de hoje. Eu estava perfeitamente à vontade com o que viria a seguir. A ti’ Maria tinha-me explicado o que pretendia fazer: não fosse a menina pensar que ela estaria ali para matar o marido – pensou!? Eu pude entender que tudo não passava de uma brincadeira, para ela uma tentativa a ver se o marido deixava de beber. Na sua opinião, o ti’ Tinel era o melhor homem do mundo e só a maltratava com o bucho cheio de vinho.
Bem, entra o ti’ Tinel e a esposa com voz grossa chama-o para o quarto. A ti’ Maria estava em cima da cama, de braços abertos, toda coberta da cabeça aos pés com um lençol branco e uma roçadoira na mão. Entretanto, ela ordena: de joelhos ó malfadado homem. Ele obedece sem dar um pio. Aí, ela começa a deslizar, faz o pedido ao seu amor que não descobre quem está debaixo do misterioso manto branco.
- Eu sou a morte e venho matar-te. Depois levo-te e só acordas no outro mundo. E ele pede-lhe: “Ai senhora morte não me mate que eu faço tudo o que me pedir".
- Então vais ter que me prometer que não voltas mais a beber e não vais mais maltratar a tua Maria. Prometes ainda viver com ela e ama-la até à que a morte vos separe. Podes fazer-me esta promessa ou morres já esta noite.
O pobre do ti’ Tinel levanta-se, cai, e com os olhos quase serrados, meio adormecido, sussurra:”senhora morte vá-se descansada eu nunca mais volto a beber e vou gostar da minha Maria e respeitá-la até que Deus me queira guardar neste mundo".
E pronto, ali adormeceu como um anjo, aliás como um bêbedo ou como um cacho branco ou tinto.
A ti’ Maria quando viu o marido pegado no sono, cobriu-o com duas mantas e aconchegou-o com todo o carinho. Não tardou a pedir à minha irmã que a ajudasse a subir o marido para cima da enxerga. O t’i Tinel acordou no dia seguinte e contou à esposa que tinha tido um sonho bizarro mas que o havia ajudado a afirmar-se como homem e como marido. Garantiu-lhe que na vida de casal muitas coisas viriam a mudar. A partir de agora haveria mais amor e mais respeito entre eles, garantiu o Tinel à sua Maria. Uma promessa de amor eterno que ainda hoje perdura.