Publicado: 07/07/2008
O PIONEIRO
Foi ele
Naquele dia de primavera alta, ainda lusco-fusco, antes do fogoso sol despontar por detrás da encosta maciça que sempre nos escondeu a Covilhã, a concelhia sempre desconexa com as nossas realidades, o que por calculadas contas de muitos contares só aconteceria mais ou menos no instante em que transpusesse o ligeiro planalto da Selada Cova, onde a “minha” vereda Cebola-avesseira-fraga alta-vale d’ermida cruza a estrada Minas-Portela de Unhais, começando depois o declive do rebordão para os lados da Barroca Grande e freguesia de S Francisco de Assis. Ainda subindo, sem desânimo, passo certo, que nessa longínqua data, diga-se, pouco custava; com a respiração desforçada e ritmo constante ia olhando, vendo, desfrutando… e assegurando-me de que não era ouvido, pensava,
foi ele
Sob um céu ainda salpicado de pontos cintilantes, que, consoante o seu valor astral, a própria grandeza e intensidade, iam esmorecendo gradual e proporcionalmente à medida que a aurora se impunha, sumindo-se de vez, tímidos e envergonhados pela anunciada chegada do imperador, que aos primeiros clarões apaga e esconde todos os concorrentes estelares, a terra submete e ilumina com o seu majestoso esplendor, e a natureza campestre, agradecida, repete-se em manifestação de vida rumorejante, e brota e renasce e desabrocha e floresce…
Cruzava ainda a abesseira (por vezes digo abesseira, étimo que se impôs pela via popular em vez de avesseira do léxico erudito, porquanto, nestes casos, é o povo que manda, e terá sempre razão até prova em contrário), um pouco acima das hortas em socalco, e já quase a chegar ao viso, logo acima dos enigmáticos “barreiros” de terra semibranca, semichumbo, de cuja proveniência não há vestígios nem indícios que justifiquem a sua textura geológica, cor e disposição naquele local.
Lembrei-me então de quando, mais jovem, o meu colega me rendia no posto de trabalho um pouco antes do turno que acabava às três da manhã, e, sem esperar pelos mineiros que sairiam à hora certa, demandava a nossa terra, passando as serras sozinho e completamente às escuras. Chegado ali, onde agora seguia em sentido inverso, sentava-me durante algum tempo se fosse verão, olhando, mas mais percebendo do que vendo, o decrépito casario, amontoado inexpressivo, guardando e selando o mistério de cada vida em plena escuridão e silêncio.
Meu povo vem à janela
Firma bem o teu olhar
E vê como a noite é bela
Até mesmo sem luar
Começava a dobrar a aresta que nos vira para o vale d’ermida e já se iam notando as rugosas serras em íngremes lombas descendo para nascente, abertas em concha, como se em eterna e sublime dádiva e entrega sem reservas à fecundidade do astro-rei. É a eterna partilha em cópula deleitosa, sempre renovada, resultante de tácito acordo, legalizado por escritura intemporal, em obediência a ditames universais! Lá em baixo, as hortas, courelas e lezírias de couves, legumes e hortaliças e milho já alto, verdejante, ladeavam a ribeira. Os barrocos e ribeiros, com árvores de fruta, videiras e oliveiras transmitiam um total aproveitamento dos espaços construídos com suor, sofrimento e… muitos calos; nada era desperdiçado porque tudo era necessário. A despeito do dinheiro das Minas, havia que não descurar essa essencial complementaridade, sem a qual não haveria modo de dar de comer a tanta gente. Nunca se contaram tantos habitantes. Falava-se em duas mil e duzentas pessoas só no burgo principal.
Em frente, os barroquitos do vale de ermida estavam completamente esburacados em rescaldo e testemunho do que fora a procura do estanho durante os períodos do kilo e do saltipilha. O trilho que seguia, a vereda, era de pedras soltas; umas reboladas lá de cima com as chuvas e os ventos, outras, a grande maioria, reminiscências do período garimpeiro. A serra, nesse lugar, estava feia, triste, paupérrima, quase despida de vegetação. Lembrava carências… a miséria de tempos idos, mas bem próximos. As poucas moitas, assim como as pedras, estavam ainda suadas pelo orvalho da noite. Mais ao longe, o manto de neve que ainda há pouco tempo cobria toda a serra do nosso horizonte nordestino recuou, e agora parecia-se a um gorro branco ou cabeça de bisavô encanecido, tapando apenas o cocuruto continental!
Ainda os sinos da torre da igreja não tinham batido as seis badaladas; ia pegar às sete, e ia só, e ia pensando…! Apesar de nesse tempo ser proibido e crime de lesa a pátria tomar tal atitude, pensava,
foi ele
O nosso povo, tal como os povos de todo o mundo, tal como os povos de todos os tempos, mais e quase sempre por razões económicas, nunca financeiras, poucas vezes políticas, começou a emigrar e desta vez parecia ser a sério. Quem ficasse sujeitar-se-ia a ficar sozinho. Tinha chegado da Índia no ano anterior e tudo parecia ter mudado… incluindo as mentalidades! Já não havia equipa de futebol; a filarmónica estava desfalcada ou já não tocava; deixara de haver atividades culturais e recreativas organizadas… até as lúdicas eram raras e já não faziam sentido. Três anos na tropa foram suficientes para não reconhecer a juventude pujante e impetuosa que fora na década de cinquenta e impusera Cebola ao respeito de todas as outras terras circunvizinhas. Não porque mudassem ou fossem piores ou diferentes…! Apenas porque, paulatinamente, foram dispersando à procura de melhores dias para eles e para os seus.
Havia também que dar outro rumo à vida, à minha vida…e ia pensando… mesmo sendo proibido, pensava,
foi ele
Várias gerações de dedicados e incansáveis arqueólogos e antropólogos, pelos conhecimentos adquiridos com estudo e aturado trabalho, e pelos cálculos e leituras dos materiais encontrados e exumados de escavações de ruínas até aí ocultas, que pacientemente inventariaram e classificaram, vão-nos transmitindo como foram as grandes urbes do antanho, desde os tempos primitivos, com raízes muito anteriores ao Paleolítico, o seu modo de vida, a sua sociedade, sem embargo de, não raro, tais descobertas se encontrarem já conspurcadas, adulteradas e profanadas por salteadores, oportunistas ou simplesmente ignorantes; ou arrasadas e roubadas por conquistadores impiedosos e exércitos sem escrúpulos, por isso mais difíceis de interpretar, mesmo considerando o avanço dessas ciências e o saber e ousadia desses meticulosos peritos.
Apenas temos a certeza incontestável do seu modo de vida referente aos últimos seis-sete mil anos pelos documentos escritos que as civilizações já muito avançadas nos legaram, primeiro a dos sumérios e mesopotâmicos em cuneiforme, depois pelos hieróglifos egípcios, e também pelas suas obras monumentais. Por esses testemunhos, sabe-se que o homem era instintiva e naturalmente gregário como todos os seres vivos por variadas razões, sendo que a primeira se confinava à necessidade de proteção e segurança e a segunda, não menos importante nem dependente daquela, à luta pela sobrevivência. Só vivendo em grupo se sentia seguro, e mesmo que assim não fosse, a necessidade de vivência com outras pessoas obrigá-lo-ia à união com a própria família e ao seu clã, e depois a integrar-se no seio da sociedade, de todo o seu povo, para se reproduzir e se continuar obedecendo, mesmo sem se dar conta, ao apelo da sua própria natureza.
Era nómada enquanto vivia apenas dos recursos naturais que não careciam de cuidadas técnicas de tratamento, tais como a caça, a pesca e depois o pastoreio. Percorria então grandes distâncias à procura de locais de clima mais acolhedor, tal como já o faziam e fazem milhares de seres vivos da fauna e até mesmo da flora. Com a descoberta da agricultura há mais de quinze mil anos, já no vislumbre do mesolítico, logo se adaptou a viver como sedentário, construindo casas e monumentos pagãos e religiosos que deram lugar a belas cidades, grandes metrópoles, enormes civilizações. Produziram leis que foram sendo transmitidas pelas gerações, e que, embora corrigidas e adaptadas, ainda são, hoje, a base do direito que nos rege. Tudo, afinal, está tão ligado, tão próximo…!
O Tempo parece, por vezes, confundir-se com a História, e parar… – mas não. A História talvez, mas unicamente para melhor se adaptar e conhecer os povos, reis e senhores das guerras que em certos períodos a vão escrevendo a seu bel-prazer, e depois, sem avisar, como castigo, tirar-lhes a pena e a tinta e dá-la a outros povos, a outros reis, a outros senhores das guerras, e continuar então a sua marcha, enquanto o Tempo, indiferente e imparável no seu espaço e movimento, não encontra patamares para repousar, exercendo e mantendo sem descanso a inexorável lógica evolutiva da relatividade cósmica.
O viver dos povos não foi sempre bom em todo o lado. Tinha fases, épocas. Quer porque a produção sazonal não fosse suficiente, quer porque a demografia tivesse aumentado descontroladamente em tempos de maior fartura. Para minorar essa dificuldade, impunha-se a procura de terras mais ricas para dar sustento ao povo excedentário, que era sempre, por óbvias razões, a classe mais carenciada, as famílias mais numerosas. Então os mais afoitos, insatisfeitos com o precário modo de vida, abandonavam o seu território procurando onde melhor pudessem angariar aquilo de que necessitavam. E esses, não sendo egoístas, logo transmitiam e convidavam e aliciavam outros e estes, mais outros… Não havia papelada nem fronteiras, de tal sorte que, a dado passo, em vez de imigração controlada, os povos recetores viam-se a braços com verdadeiras invasões de hordas de famílias esfomeadas, primeiro entrando pacificamente, depois, com aguerridas forças armadas, conquistando os territórios acolhedores.
Mas os tempos mudaram.
Embora continuasse a haver povos e territórios mais ricos que outros, agora já grandes nações com delimitações vincadas e quase invioláveis, com muros ou guardas bem equipados, tinham, contudo, necessidade de contratar mão-de-obra para, em desenvolvimento pacífico e harmonioso, colaborar em fábricas, construção e outros serviços primários; e assim, legalmente, começou a migração dos povos modernos no sentido das nações modestas para as mais ricas…
E porque daqui, de Cebola, embora esporadicamente houvesse um ou outro aventureiro que fosse trabalhar para a Venezuela, Brasil, USA, Canadá, Colónias ou África do Sul, nunca isso foi considerado como emigração de massas porque esses “atrevidos”, isolados, sempre por lá ficaram sem darem cavaco…e por isso eu ia pensando… sem o dizer não fosse o diabo tecê-las, pensava,
foi ele...
Ele, por mais paradoxal que pareça, era um empregado de escritório; estatuto social invejável nos tempos de então!... Trabalhava no escritório central das Minas, na Barroca Grande – departamento de estudos. Não sei qual seria o montante do seu vencimento; julgo que seria bem modesto, se calhar era inferior ao de um mineiro; não sei nem nunca lho perguntei porque nunca tivemos grande confiança. Era um pouco mais velho que eu e morava no extremo oposto, lá bem no cimo do Outeiro. Não era músico, não jogava, nem alinhava em certas atividades, pelo que, em toda a vida, não devemos ter trocado mais que meia dúzia de palavras ocasionais, sem significado.
Não sei onde mora, como vive, se vive (oxalá que sim e por muitos anos); sei, contudo, que foi ele que um dia, sem se esperar, emigrou para França mais o seu amigo Ernesto, sejamos justos; de lá logo chamou os irmãos, estes chamaram os cunhados, os cunhados, os irmãos e os irmãos dos cunhados, mais os primos; e os primos, outros irmãos e cunhados... Da França foram para a Suíça, Luxemburgo, Alemanha, para o Canadá; a febre alastrou e mesmo os que não foram para o estrangeiro viajaram para Lisboa (aconteceu comigo e ainda vim a tempo de aqui trabalhar um pouco mais de quarenta anos!) e outras terras de Portugal. Haverá alguns cuja saída, como é o meu caso, nem terá a ver diretamente com essa concatenação de “chamamentos”, mas estou certo de que foram propelidos para essa atitude dentro do espírito, da “febre”, que o precursor do movimento lhe incutiu, e esse, quer se queira quer não, até prova em contrário, foi quem penso que foi, porque já nessa altura, de baixinho para eles não o saberem, pensava,
foi ele…
Ele é o que está sentado no lado direito da foto em baixo, de fato preto e chama-se Zé Fontes; José dos Santos Fontes ou José Fontes dos Santos (o seu amigo Ernesto é o do chapéu); filho de uma senhora que era forneira e trabalhava no forno do Terreiro. Creio que todos os emigrantes da primeira, segunda e terceira geração, assim como os remigrados, lhe deviam dar o nome de uma rua, que poderia ser a rua da casa onde nasceu; ou até um busto custeado pela emigração para o estrangeiro e para o território nacional. Bem merece ser recordado e ficar para a posteridade da nossa terra.
